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  • Guida Bittencourt

Mas puta merda



Ontem rolou manif em defesa da educação. O movimento foi grande em tudo que é lado e a resposta do presidente, novamente esquecendo da sua posição-sujeito, foi uma série de groselhas. Uma delas é que “esse bando de inútil” não sabe nem a fórmula da água(?). Bom, eu de minha parte vou contar pra ele a fórmula da água que me cabe, sendo eu pesquisadora em linguagem (ele próprio talvez não alcance essa metáfora, mas a verdade é que eu não dialogo com ele...).

Vou propor aqui uma brevíssima análise de um cartaz que viralizou por aí e que diz: “nossas expectativas já eram baixas, mas puta merda”. Tem dois fenômenos aí que me interessam. A cooperação e o limite sociodiscursivo pra interpretação.

O primeiro deles é a colaboração nas interações linguageiras. Enunciado por Grice, o Princípio da Cooperação nos diz que a gente sempre vai tentar compreender o que o outro tá dizendo. Isso significa que a gente preenche um monte de lacuna, completa frases mentalmente, pressupõe coisas e talz.

Ou seja, no processo de comunicação a atuação de todos é ativa, a gente não pega uma coisa pronta e processa, mas vai processando junto, vai complementando, compreendendo, interpretando. É um processo cognitivo super complexo e que, no mais das vezes, funciona perfeitamente. Sem força, só vai. É lyndo! A gente sempre vai atribuir sentidos, vai crer na veracidade das informações, vai compreender inclusive quando algumas informações não foram textualmente mencionadas e vai que vai nesse jogo.

Nesse caso, por exemplo, a frase não está concluída, é a gente que complementa o finalzinho com “mas, puta merda, não era pra tanto”, “mas, puta merda, não imaginei que fosse tão ruim”, “mas, puta merda, que catástrofe, “mas, não precisava exagerar”, “ mas, puta merda foi pior”.

Além da textualidade e da estrutura que nos sugerem esses modos de completar a frase, há também um dado discursivo, ou seja, é pelo lugar da enunciação (lugar aqui tô pensando tanto o lugar físico mesmo quanto o lugar social e histórico) que limitamos as possibilidades. Apenas complementações com esse sentido (era ruim mas piorou) são possíveis nesse caso.

Não há autorização sociodiscursiva pra preencher a lacuna com “mas puta merda, tava erradona” “mas puta merda, dessa vez errei feio, errei rude...”. E por que não tem essa autorização sociodiscursiva? Porque os textos só significam certas coisas em dados lugares socioculturais, historicamente situados, com sentidos condicionados por quem fala e para quem fala. Nesse caso, uma manifestação de estudantes em defesa das universidades, frente ao anuncio de “contingenciamento” de verbas suficientes para inviabilizar o funcionamento da universidade SÓ É POSSÍVEL interpretar assim. É a formação discursiva que faz o “contingenciamento” de sentidos (isso é o Foucault e o Pêcheux que dizem).

Há limites, portanto, para o preenchimento desse não-textualizado aí: é isso que o Umberto Eco diz. Mas não apenas ele. Esse é um postulado fundamental da disciplina da Análise do Discurso e de uma certa linguística textual.

Enfim. Puta merda.

~~~~ ainnnn vai politizar as coisas de linguística?? MEUS ANJO, A LINGUAGEM JÁ FEZ ISSO ANTES DE MIM, eu só estudo

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